exposições
Meu nome é Eduardo Andrade, sou mineiro de Belo Horizonte e moro, há muitos anos, na cidade do Rio de Janeiro. Cheguei aqui com dez anos de idade, estudei em escola pública por quatro anos e fiz o antigo científico no Colégio Santo Agostinho. Passei minha adolescência nas praias do Leblon e Ipanema onde, aos dezesseis anos, ingressei num grupo de teatro amador no extinto colégio Isa Prates. Minha paixão pelas artes vem desse período. Entrei para a UERJ (ESDI) no curso de Design em 1982, período em que também entrei em contato com o teatro de bonecos e passei a usar os conhecimentos do design para criação e aprimoramento de mecanismos e processos de construção e projeto de bonecos. Em 1986 junto com mais quinze amigos das mais variadas formações fundamos o emblemático grupo de circo “Intrépida Trupe” viajando pelo Brasil e o mundo levando a brasilidade do então conhecido Circo Novo. Na Intrépida, além de atuar como o palhaço Dudu, usei meus conhecimentos de designer de bonecos para criar marionetes em pernas de pau e monociclo.
Pense numa caixa de papelão repleta de curiosidades. Essa é minha vida, uma caixa cheia de ideias e informações que transbordam realizações em diversas áreas do conhecimento.
Outra paixão que nunca deixei de lado relaciona-se às artes plásticas. Sou autodidata em perseguir técnicas e processos na pintura, ilustração e escultura. Participei de exposições coletivas e individuais, e hoje uso toda minha vivência para integrar as artes plásticas ao mundo do circo. Meu trabalho como artista plástico resgata a magia, as cores e o universo das personagens e do mundo do circo. O exercício de transpor para o papel e as telas o universo do circo pode parecer, muitas vezes, uma simples reprodução das imagens vistas e dos artistas assistidos, mas carrega em seu fazer uma observação detalhada e minuciosa das subjetividades e singularidades desta arte milenar. O circo está presente no imaginário humano. Suas cores vibrantes e personagens únicos pertencem a um mundo mágico e encantador, que desperta no espectador a alegria e o fascínio, retratados por mim, um atuante palhaço, em desenhos, esculturas e telas.
A arte recebe uma ampla variedade de influências: artísticas, políticas, sociais e tecnológicas. Como artista integrado ao atual momento histórico faço com que essas influências perpassem por todas as minhas áreas de atuação.
Minha arte é contemporânea e simples. Aposto na formação de novas plateias, apresentando uma linguagem gráfica e pictórica acessível a crianças e jovens de todas as idades. A leitura é direta e sem barreiras, mas a reflexão que se instala após observar uma ilustração ou quadro deve ser ampla e levar aos mais profundos campos do conhecimento.

Manifesto Duduísta
Inspirado e retirado, com livre interpretação e montagem, dos livros: "Sobre Arte", de Ferreira Gullar; Arte e Ilusão de E.H. Gombrich; Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade e comentários do autor. Manifestar é tornar claro, evidente, notório, público. Manifesto Duduísta é um movimento estético circense, artístico e filosófico que tem como principal objetivo despertar na mente do espectador uma reflexão contundente e curiosa diante da obra de arte. Não só diante da obra em si mas principalmente pelo que está por trás dos traços. No Manifesto Duduísta I (1991) parti da premissa que a obra de arte é o próprio artista. Tenho um Picasso na minha casa. Tenho um Di Cavalcante na minha parede. A obra é o artista. Hoje, no Manifesto Duduísta II, venho complementar essa premissa com uma questão de cunho particular e pessoal: Sendo a obra o próprio artista, qual artista você gostaria de ter na sua casa? Sendo o pensamento e a filosofia de vida do artista completamente contrárias ao seu modo de ver o mundo, você, mesmo assim, traria esse artista para dentro da sua casa? É possível separar o humano da sua obra? Para refletir sobre o assunto, separo a obra de arte em dois momentos de existência: o primeiro diz respeito à sua materialidade, à técnica empregada em sua manufatura, aos seus componentes como tecido da tela, tintas, pigmentos etc; ou numa escultura, a pedra, o metal e a argila e finalmente sua forma. Um quadro são linhas e cores, a estatuária são volumes sob a luz. Vendo por esse prisma, a materialidade de um quadro do Portinari é, se não a mesma, pelo menos bem parecida com os materiais que o famoso pintor que ninguém conhece também usa. Num segundo momento passamos a analisar a obra de arte segundo sua representação simbólica e mercadológica. A matéria morta que compõe a obra de arte toma vida dentro de um determinado contexto sociocultural. Passando de simples objeto material para uma esfera mais ampla. Quem determina essa passagem? Quais são os critérios usados para chancelar uma obra galgando-a a um patamar de representação simbólica e comercial? O primeiro passo é este que estou fazendo aqui com esta exposição e este manifesto; o segundo passo vem de vocês. Da apreciação às obras. Quero que vocês se divirtam como num espetáculo de circo. Estou me apresentando para que vocês me conheçam e queiram me convidar para suas casas. A materialidade do objeto de arte torna-se uma extensão do próprio artista. A arte presente remete ao artista ausente, mas ao mesmo tempo presente em sua obra. Nossos olhos só recebem estímulos na retina que resultam nas chamadas "sensações de cor". É nossa mente que elabora essas sensações em percepções, que são os elementos da nossa visão consciente do mundo - fundada na experiência e no conhecimento. A Arte existe nos fatos, nos objetos, na matéria. Toda e qualquer manifestação artística precisa de um suporte para existir. Ao se transformar em objeto de arte, a matéria é impregnada da força vital do artista. Picasso dizia que um quadro é um ser vivo, que respira: se se puser um espelho junto a ele, o espelho fica embaçado... se não fica, digo eu, deveria ficar. Lucien Freud escreveu: Um momento de completa felicidade é coisa que jamais ocorre durante a criação de uma obra de arte. A promessa que ela encerra pode ser sentida no ato da criação, mas desaparece ao final do trabalho, porque é então que o artista se dá conta de que aquilo é apenas um quadro que ele está pintando. Até então ousara quase esperar que o quadro pudesse de repente adquirir vida. Já Milton da Costa dizia que o quadro é um silêncio e que Picasso faz muito barulho. Sued afirma que o quadro deve desaparecer na parede. Naturalmente, em cada artista isso se dá de modo peculiar e assim quadros de artistas diferentes "vivem" de maneira diferente. Segundo Ferreira Gullar "O sentimento que anima o artista passa através de seu braço, vence a resistência do pincel e se transmite à matéria originalmente morta que vai se espalhando e ganhando vida na superfície da tela". Fico todo arrepiado!! O que define o modo de formulação estética - e determina a vitalidade da expressão - é essa unidade do pensar e do fazer: o artista não sabe a solução senão quando termina a obra - ela é a resposta à indagação que a fez nascer. Se o artista já sabe a resposta, antes de fazer a obra, a obra é desnecessária. Sendo assim convido vocês a um passeio pelas minhas respostas. Sou o artista plástico e palhaço Dudu, dentre outras formações. Vim de Minas Gerais, mais especificamente de Belo Horizonte. E finalmente, para onde vou? Para os anais da história. A verdadeira vanguarda artística é aquela que, buscando o novo, busca a liberdade humana. E é isso que quero propor aqui com este manifesto: a liberdade de poder ser convidado para estar na casa de vocês com minhas obras. O menor descuido vos fará partir em direção oposta ao vosso destino. Pensem onde vocês querem estar e chegar daqui a cem anos. É hora de ¡pensarmos a longo prazo. Sinto que este é o momento de se investir em arte. Na minha arte. A síntese, o equilíbrio, o acabamento, a invenção, a surpresa, uma nova perspectiva, uma nova escala. Substituir a perspectiva visual e naturalista por uma perspectiva de outra ordem: sentimental, intelectual, irônica, ingênua. Nenhuma fórmula para a contemporânea expressão do mundo. Ver com olhos livres. A experiência pessoal renovada. Como todo manifesto, este aqui também se perde no emaranhado furor da mente humana. Tenham todos um ótimo passeio e no final, me levem para casa.

Livro/ catálogo

Theatro Municipal de Niterói
Exposição “Um Palhaço na Arte” realizada no Theatro Municipal de Niterói em Niterói em outubro de 2023.
A exposição mistura uma pesquisa técnica de materiais, com as cores do circo e a irreverência do palhaço, resultando num trabalho único e autoral dentro das artes plásticas. A mostra visa misturar as figuras do artista plástico, do designer, do professor e do Palhaço Dudu, personas que o artista Eduardo Andrade coleciona.
A exposição "Um palhaço na arte: manifesto duduísta II" é dividida em três fios condutores que retratam uma produção artística sob a perspectiva do circo e da palhaçaria. O primeiro momento da exposição é marcado por uma breve retrospectiva do que foi o primeiro Manifesto Duduista através de imagens, colagens e documentos, nos transportando ao passado para entender de onde vem esta construção de um palhaço-artista.
Nosso segundo momento é dedicado a entender a fonte de inspiração deste palhaço-artista: as figuras do circo. Através de sua linguagem característica, Eduardo retrata o malabarista, o dono do circo, o magico, os palhaços, contorcionistas, e outras tantas pessoas que dão vida ao imaginário popular do circo. Sua produção é permeada por diferentes técnicas como aquarela, pintura, desenho e colagem, experimentações que nos conduzem a uma perspectiva lúdica, nos envolvendo nas imagens coloridas e cheias de texturas que produz.
O momento final da mostra se concentra nesta ludicidade que toma uma forma tridimensional a partir das construções de esculturas e bonecos, os quais Eduardo produz a partir do reaproveitamento de resíduos sólidos, demonstrando sua
preocupação ambiental. O palhaço que é artista, é também designer e educador, e nos encanta com a possibilidade de aprendermos vendo o simples tomar vida através da arte.
É no contexto desta exposição que Eduardo Andrade traz o Manifesto Duduísta II em forma de performance, na qual ele reflete sobre o valor da arte e do artista, e nos convida a aproximar a arte dos nossos cotidianos.
Centro Cultural Solar de Botafogo
Exposição “Um Palhaço na Arte” realizada no Centro Cultural Solar de Botafogo no Rio de Janeiro em janeiro de 2024.
O circo habita o imaginário humano com suas cores vibrantes e personagens singulares, pertencentes a um universo mágico que desperta alegria e fascínio — atmosfera que esta exposição recria por meio de desenhos, esculturas e telas concebidas por um palhaço‑artista. A mostra inclui a apresentação do Manifesto Duduísta, interpretado pelo eclético palhaço, cientista e pintor Dudu, numa homenagem ao circo de todos os tempos e numa crítica bemhumorada ao valor da arte. O conjunto das obras resulta da combinação entre pesquisa técnica de materiais, a paleta exuberante do circo e a irreverência do palhaço, configurando um trabalho autoral singular no campo das artes plásticas. A exposição reúne e entrelaça as múltiplas figuras que compõem o artista Eduardo Andrade — o artista plástico, o designer, o professor e o palhaço — revelando a riqueza de suas camadas criativas.


Sala de Cultura Leila Diniz
Exposição "Cara de Palhaço, Pinta de Palhaço" realizada na Sala de Cultura Lela Diniz em Niterói em abril de 2024.
Armazém da Utopia
Exposição “A devida comédia, um palhaço na arte” realizada no Armazém da Utopia no Rio de Janeiro em maio de 2026.
Há algo de perigoso nos palhaços. Não aquele horror óbvio e sangrento de facas, serras e machados dos filmes trash, mas algo muito mais primitivo e subterrâneo, capaz de torcer a razão instituída e revelar a fragilidade de nossas crenças. Bobos da corte, jesters, bufões, clowns e palhaços de todas as denominações são o contraponto ao Poder e à majestade substituídas pela irreverência e a solenidade pelo deboche e o ridículo. Sempre são e serão subversivos e talvez isso explique a permanência dos palhaços até mesmo no mundo digital de hoje.
Por tudo isso ninguém melhor que Eduardo Andrade, o Palhaço Dudu, para nos encantar com suas esculturas e pinturas. Designer, pintor, escultor, malabarista, ator, músico, bonequeiro, contador de histórias, relutante dançarino e grande mestre da palhaçaria, Dudu levou a mesma graça e ironia de suas ações teatrais e circenses para as telas e objetos tridimensionais, sempre de forma inusitada e a serviço do humor, ora mais ácido ora mais pungente.
O riso suspende as controladoras expectativas e, como escreve Bergson, afrouxa "a rigidez mecânica na superfície do corpo social". Sem ele seríamos pouco mais que autômatos e é exatamente nossa capacidade de rir de nós mesmos e dos outros que permite que sejamos tolerantes, possamos abraçar as diferenças e nos abrir à criação. A primeira pessoa que riu inventou a humanidade.
Mauro Trindade
Curador





































































